privada aberta

24.7.07

Carol

Sabe aquele dia que se chega do trabalho cedo, cedo o suficiente para se parecer que temos uma quase tarde inteira pela frente, e ela se esvai, assim, do nada...e ficamos pensando onde desperdiçamos a tarde, onde ela foi parar. Mas, como sempre, não se acha.

Um péssimo dia de trabalho. Um péssimo resto de dia. E a chuva cai, melancólica, na terça-feira, ininterrupta, indelével, e mesmo quando pára, a ouvimos ressoando pelo labirinto. É a junção de vários episódios melancólicos num início de noite (20h), onde neste exato momento um trovão retumba pelo ar e a chuva precipita-se sobre o solo. É num dia desses que, sozinho, brigado com a namorada, longe de amigos ou qualquer ser vivo que possa estabelecer um mínimo de ânimo à alma, decidi fazer algo que nunca fiz e provavelmente nunca repetirei: beber uísque sozinho.

Mas não tinha jeito. Era preciso. Porque precisava escrever, e não escrevia, precisava me centrar em algo e não centrava. Necessitava sentir aquele calor inebriante subindo pela espinha cabeça acima, a leve tontura inicial de um pretenso pileque - ou posterior pileque - e senti, e no final do segundo copo, repleto de gelo apesar do frio - frio que se esvaiu sabe-se lá como, e agora retiro meu casaco, o suor começa - prestes a servir um novo copo, pensando sinceramente onde poderia terminar a noite, esta noite de terça-feira, terças-feiras que quase sempre nada de interessante nos trazem no que se refere a mulheres, neste pútrido e pulcro local em que vivo, Londrina.

Pensei em ligar pra quase-ex, mas não. Nesse jogo de forças, em que necessitamos demonstrar nossa superioridade psíquica, no final de um relacionamento, não podemos ceder. Já cedi várias outras vezes, me arrependi amargamente, pois sempre me passei por tolo. Aprendi a duras penas. A queda de braço é pesada, e é necessário estar preparado e tentar a todo custo sair por cima. Pensei em ligar para meus amigos, mas amigos solteiros sobram-me poucos. Desses poucos, nenhum sairia numa terça-feira a beber, justamente porque nada se tem de aproveitável em terças-feiras, ainda mais chuvosas. Os compromissados, casados e congêneres têm também suas razões para isso, embora, dependendo do dia, não a tenham. Pensei em ligar pra algum rolo antigo, muito antigo, mas numa terça, do nada, seria estupidez demais.

Acabei por ficar em casa. Quem sabe depois eu dê uma volta pela cidade em busca de algo. Acabei de encher meu copo de uísque novamente. É sempre assim. Quando começamos a ficar levemente ébrios, surge então algo como um longo estado de sobriedade que perdura até atingirmos a finíssima linha, ou o ínfimo gole, que separa a loucura da sensatez. Nesse patamar que, ao atingi-lo, ficamos alertas, espertos, sentimos mais as influências sensoriais ao redor. O ápice antes do esquecimento total, da loucura terminal do porre, da bebedeira, do fogo. O êxtase sem tesouras a nos podar. O Olimpo. O Zigurate.

Acabei hoje de ler um livro chamado Carol. Uma história belíssima, como todas da grande escritora Patricia Highsmith, que poucos conhecem, e destes poucos a maioria só deve ter visto o filme famoso beaseado em sua obra-prima - que ainda não tive o praze de ler, e também não vi o filme - The talented Ripley (O talentoso Ripley). A história de Carol fala de um amor repentino da protagonista Therese por Carol. Um amor súbito, sem sentido, mas intenso, de uma mulher para outra. A profundidade psicológica de Patricia ao descrever as cenas é algo único. Apesar da fraca tradução da coleção de livros de bolso da L&PM, ainda assim é possível perceber a qualidade da autora. O problema é ser tão difícil no Brasil ter acessos a livros originais em outras línguas. Até mesmo livros em português são foda de encontrar. É o preço involuntário que se paga em um país que despreza o estudo, a leitura. Um país burro, onde o conhecimento fica em segundo plano.

Já que enveredei pelo batido mas não menos sincero caminho de criticar o país, divido agora com vocês uma pequena constatação que me ocorreu hoje à tarde, enquanto eu via a derrota da seleção feminina PRINCIPAL de basquete perder para a seleção UNIVERSITÁRIA norte-americana de basquete. E é simples, e provavelmente muito mais gente já se apercebeu disso, mas é simplesmente o exemplo maior de que, contradizendo o governo, que fala que investiu não sei quanto em educação superior etc etc, o Brasil não tá nem aí pra educação, aliás, pra nada. Duas frases: Nos EUA, pra se tornar um grande jogador da NBA (ou de baseball, ou futebol americano, ou atletismo, ou ginástica, hoje até mesmo no futebol!) os atletas são selecionados dentro das universidades. As universidades incentivam quem é atleta a ter um curso universitário. No BRASIL, os atletas deixam de estudar para praticar esporte. E são aplaudidos por isso. Numa das inúmeras decisões do judô, Cléber Machado, uma anta menor da narração esportiva da globo, exaltava "o sacrifício da iniciante fulana de tal, de apenas 15 anos, que parou de estudar para se dedicar exclusivamente aos treinamentos para o pan, e ficou com a prata". Porque aqui se se é famoso, não é preciso mais nada. Pára-se de estudar e pronto.

No Japão, todos se curvam ao imperador. Mas o imperador só se curva a PROFESSORES. No Brasil, os professores se curvam pra não levarem uma bala perdida na cabeça, e se curvam pra receber o belíssimo soldo de pouco mais de 1 salário mínimo.

E cansei. Até pareço o ex-candidato a presidência, que apesar de perder, pregava exatamente isso, embora tenha lá minhas dúvidas se ele iria resolver nosso problema.

Vou beber meu uísque e, se tudo der certo, ir pralgum bar terminar de encher a cara.

21h, câmbio e desligo.