privada aberta

18.6.07

MINHAS VIDAS VERDES

Enquanto anoitece pelos ouvidos de meu quarto, vejo uma flor que se vai. Embora nunca tenha pensado nisso, vai embora. Muito embora minhas vidas verdes se atravessem por outras vidas mais vivas que as minhas, e mais verdes, muito embora minhas vidas verdes atrapalhem tantas e tantas vidas - que por minha causa perderam seu verdor -, essas vidas que atrapalho me são necessárias.

Não espero ficarem azuis para atrapalhá-las: quero-as verdes, quero-as apressadas, quero-as loucas como Kerouac; quero-as na minha ânsia, no frênesi e no êxtase de um desejo incerto. Quero tocar estas vidas verdes, que me atropelam. Quero mexer com estas vidas verdes, que eu atrapalho. Quero comer o fruto desta vida verde, tocar sua pele rosada, beijar seus lábios trêmulos e macios, sorver a língua e os seios destas sereias, seres verdes de minha vida.

Sou um adarilho (é poético dizer andarilho, soa bem). Sou um vagabundo. Um ébrio que, estando acima da vida, sobre-vive. O que me inebria é a vertigem. Não. Minha embriaguez traz a vertigem. Não. A vertigem força-me a beber para agüentá-la. Talvez isso. Talvez viver não seja nada mais que uma vertigem contínua, e de tanto rodarmos, sucumbimos. Talvez.

Por isso bebo para esquecer minhas vertigens. Por isso amo essas vidas verdes de sereia: para fugir de minhas vertigens. Para não sucumbir ante meu próprio abismo. Por isso minha vontade é algoz do meu desejo. Por isso meus calabouços internos prendem meus gritos eternamente. Por isso meus calabouçoes prendem minha respiração.

Sucumbi à minha vertigem. Não me resta salvação.

Solamente me resta una sirena. Y ella está huyendo para lejos, muy lejos de mi corazón.